Peço desculpas pelo tamanho do texto, mas escrever sobre a família Vasques é impossível em poucas palavras. São décadas de trabalho, dedicação, sabores, encontros, fotografias e, acima de tudo, muitas histórias e memórias que merecem ser preservadas.
Cada detalhe faz parte de uma época e de uma família que deixou sua marca na história de Uberaba. Por isso, este relato é também uma forma de homenagear aqueles que construíram essa história e preservar para as novas gerações as lembranças de uma família, de um estabelecimento e de uma cidade que já não existem da mesma maneira, mas que continuam vivos na memória de quem os conheceu.
O começo de uma história
Tudo começou na década de 1920, quando Felipe Vasques e Maria Poticelli fundaram a Confeitaria Vasques. O casal trabalhava junto e, com dedicação, construiu um negócio que, ao longo dos anos, faria parte da história e da memória de Uberaba.
Em 1940, Felipe faleceu, deixando Dona Maria à frente da família e do estabelecimento. Com a ajuda dos filhos, Felipe e Gilberto, ela deu continuidade ao negócio, que passou a ser conhecido como Bar da Viúva do Felipe. Com o passar dos anos, o nome foi encurtado e o estabelecimento ficou conhecido simplesmente como Bar da Viúva.
Dona Maria comandou o estabelecimento por cerca de quatro décadas. Ao lado dos filhos, transformou o bar em um tradicional ponto de encontro da cidade.
A Rua do Comércio era o point
Nas décadas passadas, as calçadas de Uberaba tinham uma vida própria. Eram espaços de encontro, conversa e convivência. E a Rua do Comércio era o grande point da cidade.
O Bar da Viúva fazia parte dessa paisagem. O bar ficava lotado, especialmente nos horários de maior movimento. As mesas se enchiam de clientes, amigos e famílias, enquanto as calçadas também ganhavam vida com a movimentação das pessoas.
Era uma época em que os encontros aconteciam nas ruas, nas calçadas e nos bares. As pessoas se sentavam para conversar, reencontrar amigos e compartilhar histórias. O movimento da rua se misturava ao movimento do bar: gente chegando, gente saindo, conversas, risadas e o aroma dos salgados e das pizzas preparadas por Dona Maria.
O estabelecimento também funcionou em outro endereço, na mesma Rua Arthur Machado, no quinto quarteirão, ao lado da residência onde Dona Maria morava com sua filha, France.
Os sabores que ficaram na memória
O Bar da Viúva ficou conhecido por seus salgados, pelas famosas pizzas e pelo picadinho de filé ao molho. O tradicional chope Antarctica também fazia parte do estabelecimento.
Eram sabores que ajudaram a construir a identidade do bar e que permaneceram na memória dos antigos frequentadores. Mais do que comida, eram sabores associados a encontros, conversas e momentos vividos por famílias e amigos.
Entre uma pizza, um salgado, um picadinho de filé ao molho e um chope, o Bar da Viúva ajudou a construir a história da antiga Rua do Comércio e da vida social de Uberaba.
A famosa massa de pizza de Dona Maria
Quando France foi perguntada sobre a receita da massa de pizza, contou que a “Vó” dizia que não havia segredo. A receita era simples e feita de maneira tradicional:
“Um tanto de farinha, um tanto de óleo, ovos, um pouco de água, sovar a massa até dar o ponto... deixar a massa descansar... crescer... cortar e enformar.”
Não havia medidas exatas. Havia experiência, prática e o conhecimento adquirido ao longo dos anos. Era o famoso “olhômetro”, de quem sabia reconhecer o ponto certo da massa.
Talvez estivesse aí parte do segredo dos sabores que ficaram na memória. Muitas vezes, os grandes sabores não dependem de medidas precisas, mas da experiência, da dedicação e do conhecimento adquirido ao longo dos anos.
Uma mulher incansável
Segundo relato de France, filha de Dona Maria, sua mãe era uma mulher incansável. Sua rotina começava muito cedo. Antes mesmo das 6 horas da manhã, já estava a caminho do bar, sem se importar com a chuva, o frio ou qualquer outra dificuldade.
Chegava cedo para ppreparar as famosas pizzas e passava a manhã e boa parte da tarde na cozinha, trabalhando na massa e nas demais preparações que fizeram a fama do Bar da Viúva.
Depois, tomava banho nas próprias dependências do bar, trocava de roupa e assumia o caixa. Nos dias em que Felipe estava no comando, Dona Maria permanecia ali até as 19 horas. Nos dias em que era a vez de Gilberto, ficava até as 22 horas.
E a jornada ainda não terminava quando chegava em casa. Mesmo depois de um dia inteiro de trabalho, Dona Maria ainda encontrava disposição para fazer crochê até a meia-noite.
Segundo France, ela era sempre sorridente, calada e serena. Religiosamente, seguia sua rotina, dia após dia, com a mesma disposição.
Nem mesmo uma erisipela na perna conseguia fazê-la permanecer na cama. Acostumada a levantar cedo e sair de casa sem fazer barulho, certa vez sua filha, seguindo orientação médica, precisou dar-lhe um sonífero durante a noite, de forma disfarçada, para que ela perdesse a hora na manhã seguinte e pudesse permanecer em repouso absoluto.
A estratégia funcionou por apenas dois dias.
A incansável e sábia senhora logo descobriu os planos da cuidadosa família e, depois disso, não tomou mais o medicamento.
Esse relato de France revela não apenas a força e a determinação de Dona Maria, mas também um pouco de sua personalidade: uma mulher disciplinada, serena e profundamente dedicada à família e ao trabalho.
Sua vida foi dedicada à família e ao trabalho e permanece guardada nas fotografias, nas histórias e nas lembranças daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela.
Dona Maria na cozinha
Uma das fotografias que ajudam a preservar essa história mostra Dona Maria na cozinha do Bar da Viúva, no espaço onde eram preparadas as famosas gostosuras do estabelecimento.
Era ali que eram feitas as pizzas, os salgados e outras preparações que conquistaram os frequentadores do bar. A imagem registra muito mais do que Dona Maria trabalhando: preserva um instante da vida da família e do cotidiano do Bar da Viúva.
A foto foi tirada por Ricardo Prieto, fotógrafo e esposo de Ilka Vasques, filha de Dona Maria e Felipe Vasques. O registro foi posteriormente restaurado por Moacir Silveira, ajudando a preservar essa lembrança para as novas gerações.
Foto tirada por: Ricardo Prieto
Foto restaurada por: Moacir Silveira
Os cinco filhos
Dona Maria e Felipe Vasques tiveram cinco filhos: Didimo Vasques, France, Ilka, Gilberto e Felipe.
Didimo Vasques era bancário. France era do lar. Ilka era casada com o fotógrafo Ricardo Prieto, autor da fotografia de Dona Maria na cozinha e de outros registros que ajudam a preservar a memória da família.
Gilberto e Felipe permaneceram ao lado da mãe durante muitos anos, trabalhando com ela no Bar da Viúva e participando de perto da rotina do estabelecimento.
Ficaram ao lado de Dona Maria até 1989, ano de seu falecimento.
Depois, os irmãos continuaram a tocar o Bar da Viúva juntos, dando continuidade à tradição da família.
Dona Maria
Nascida em 1905, Dona Maria viveu até os 84 anos. Sua vida foi marcada pelo trabalho, pela família e por uma dedicação incansável ao Bar da Viúva.
Depois da morte do marido, em 1940, assumiu a responsabilidade pelo negócio e conduziu o estabelecimento por décadas, ao lado dos filhos.
Dona Maria faleceu em 1989.
O Bar da Viúva manteve suas portas abertas até 1984, encerrando suas atividades depois de décadas fazendo parte da vida social e gastronômica de Uberaba.
Hoje, os cinco filhos de Dona Maria já são falecidos. Restam, porém, as fotografias, as lembranças, os relatos e os sabores guardados na memória de quem viveu aquela época.
O Bar da Viúva encerrou suas atividades, mas sua história permanece.
Permanece nas lembranças daqueles que se sentaram às suas mesas, nas histórias contadas pelas famílias, nas fotografias preservadas e, principalmente, na memória de uma Uberaba que tinha na Rua do Comércio um de seus grandes pontos de encontro.
Preservar essa história é também preservar um pedaço da história da cidade, e da família Vasques, que por tantas décadas fez do trabalho, da comida e da convivência uma parte inesquecível da vida de Uberaba.
Antônio Carlos Prata
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