Uberaba em Fotos
HISTÓRIA - DOCUMENTOS - PERSONALIDADES: No Uberaba em Fotos, celebramos a história da cidade por meio de dois guardiões da memória local. André Borges Lopes, historiador, resgata o passado em crônicas e pesquisas, enquanto Antônio Carlos Prata, fotógrafo e memorialista, eternizou Uberaba em imagens-crônicas. Sua obra é homenagem às gerações que preservam a identidade da cidade.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
TRIBAIS SHOW MARCA DO MUNDO LIVRE S/A
terça-feira, 2 de junho de 2026
UBERABA E O SABOR DAS TRÊS COROAS
A história do Restaurante 3 Coroas, em Uberaba, criou raízes no tradicional Bairro São Benedito, na Rua Boa Esperança, no começo da Vila Maria Helena, esquina com Tenente Joaquim Rosa. Foi ali, em uma casa simples de porta estreita, que nasceu uma das mais marcantes referências da culinária árabe da cidade.
Filhas de Abrahão Miguel e dona Helena, vindos da Síria e depois da pequena cidade de Veríssimo em busca de novas oportunidades, as três caçulas: Zaíra, Síria e Abadia, cresceram inseparáveis. Após o falecimento dos pais, já em Uberaba, passaram a sobreviver com o que podiam vender na portinha de casa: verduras, cerveja, tira-gostos e até jogo do bicho. Foi ali que a história começou a mudar.
Entre uma conversa e outra, surgiram os quibes assado, frito e cru, o malfufe, a kafta, a mjadra, o sarma, charutos de repolho ou folhas de uva, os bolinhos de grão-de-bico fritos, o pão sírio e tantas receitas herdadas da tradição árabe. A carne de carneiro era especialidade da casa. O tempero marcante e o capricho no preparo fizeram a fama do lugar. Toda semana havia quibe assado, e muitos ainda se lembram do “arixe”, sabor que atravessou gerações.
A freguesia começou a aparecer no fim das tardes. Um avisava o outro, que trazia mais um. Logo, a pequena casa ficou conhecida. O convite corria de boca em boca:
— Vamos nas Três Coroas!
E assim nasceu o nome que ficaria para sempre na memória da cidade.
No início da década de 1970, o restaurante funcionava na própria casa das irmãs. Com o sucesso, precisaram ampliar o espaço. A organização era simples, mas cheia de dedicação: uma cuidava da cozinha, outra servia as mesas e a terceira ficava no caixa. Tudo muito simples, mas feito com extremo capricho.
Por mais de três décadas, o 3 Coroas foi ponto de encontro no São Benedito, recebendo amigos, casais, famílias e trabalhadores após o expediente, sempre acolhidos com simpatia e comida de primeira qualidade.
Com o tempo e o cansaço da lida diária, as irmãs passaram o comando aos sobrinhos, que tocaram o restaurante por determinado período, mantendo o respeito às receitas originais e à tradição familiar. Posteriormente, o restaurante foi repassado a outra pessoa e, depois, a outros proprietários, iniciando novas fases. No final da década de 1980, encerrava-se um ciclo importante da trajetória iniciada naquela portinha da Rua Boa Esperança.
Com o tempo, as três partiram, primeiro Síria, depois Zaíra e, por fim, Abadia. Mas no Bairro São Benedito permanece viva a lembrança das três irmãs que transformaram simplicidade em símbolo de acolhimento, amizade e tradição, consolidando a primeira grande referência da culinária árabe em Uberaba. Foto: Acervo Uberaba em Fotos.
Antônio Carlos Prata
O INESQUECÍVEL CAFÉ REAL E A MOVIMENTAÇÃO DA PRAÇA RUI BARBOSA NOS 80
Encontrei essa foto no acervo do Uberaba em Fotos e compartilho aqui essa bela memória da cidade.
Nela vemos o tradicional Bar Café Real, muito frequentado na década de 1980 em Uberaba. O estabelecimento era de propriedade de Odete Angelo e funcionava na Praça Rui Barbosa, em uma época em que o local era extremamente movimentado.
O bar ficava ao lado do antigo Cine São Luiz e também nas proximidades do Jóquei Clube de Uberaba. O movimento era intenso, principalmente nos dias de sessões no cinema, quando muitas pessoas passavam pelo local antes ou depois do filme para tomar um café.
Naquele tempo havia ponto de ônibus na praça, utilizado pelos coletivos da Empresa Líder de Transportes. Passageiros, motoristas e frequentadores da região paravam ali para saborear um café puro feito no tradicional coador de pano, muitas vezes acompanhado da famosa coxa de frango.
Antes de o Café Real funcionar ali, o espaço era ocupado pelo antigo Bar Ana Rosa. Durante anos, o Café Real foi um verdadeiro ponto de encontro da cidade, numa época em que a Praça Rui Barbosa era um dos lugares mais movimentados de Uberaba.
Com o passar do tempo, Odete Angelo levou o bar para outros endereços da cidade. Em seu último período de funcionamento, o estabelecimento passou a se chamar Bar Café Metrópole, funcionando no mesmo local onde anteriormente existiu o conhecido Bar Buraco da Onça, embaixo do Grande Hotel de Uberaba.
O bar encerrou suas atividades em 2009, juntamente com o Grande Hotel e o Cinema Metrópole, que faziam parte do conjunto anexo da Companhia Cinematográfica São Luiz, deixando boas lembranças para quem viveu aquele tempo.
A querida Odete Angelo nos deixou em 27 de novembro de 2024, permanecendo na memória de muitos uberabenses que passaram por seus bares e guardam com carinho essas lembranças de uma época especial da cidade.
Antônio Carlos Prata
QUANDO O CENTRO TINHA SOMBRA E ÁGUA CORRENDO
Voltei e chamo vocês para mais uma carona na década de 1970.
Encontrei outra foto pertencente ao acervo do Uberaba em Fotos, de autoria desconhecida, registrada na década de 1970. Mais um registro precioso daquele tempo.
Eu vi e vivi a Avenida Leopoldino de Oliveira quando o Córrego das Lajes corria a céu aberto, com balaustradas nas laterais. No trecho entre a Rua Segismundo Mendes e a Rua Artur Machado ficava uma das partes mais bonitas da avenida. Havia árvores dos dois lados, fazendo sombra, e uma passarela em frente ao hotel ligando um lado ao outro. Era um ponto de encontro, onde o movimento existia, mas sem a correria de hoje.
Nesta foto já se nota que algumas árvores tinham sido retiradas. Ali começava a mudança no centro de Uberaba.
Na avenida passavam Gordini, Variante, Fusca, Kombi, Rural Willys, TL, Aero Willys, Corcel e até Romiseta. Era outro ritmo, menos pressa e mais conversa.
Na imagem aparece o prédio da ACIU — a Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Uberaba. No painel via-se o escritório da Varig. Ao lado ficava o restaurante Tip-Top, de Joaquim Oliveira Maia, o Quinzino.
Logo adiante estava o imponente Grande Hotel. A parte arredondada da fachada e o detalhe vertical que imitava a Torre de Pisa marcavam o prédio. A entrada principal ficava ali, voltada para o córrego. Depois isolaram esse lado e mudaram a porta para o outro lado.
O Bar e Restaurante Galo de Ouro funcionava na parte de cima, onde se vê a sacada com grades, logo acima da Kombi que aparece na foto. O bar ficava na frente, olhando a água, e o restaurante ao fundo. Depois vinham o Bar Buraco da Onça, o bar do Romelzinho e, mais adiante, o Cine Metrópole.
Vi artistas passando por ali. Vi os Harlem Globetrotters em 1975. Eles ficaram hospedados no hotel e jogaram na inauguração do Ginásio do Jóquei Clube de Uberaba. Foi um grande acontecimento para a cidade.
Na época da ExpoZebu, a cidade enchia. Muita gente vinha também conhecer Chico Xavier. Os cantores iam até a Center Discos, de Almir Miranzi, para dar autógrafos.
Depois vieram as mudanças. As árvores foram cortadas. A passarela retirada. Sufocaram o Córrego das Lajes e jogaram asfalto por cima. E hoje, na área central, dividiram a extensão da avenida com grades, separando os lados e proibindo a travessia livre como antigamente.
Mas para quem viu e viveu, a antiga Leopoldino continua viva na lembrança.
Porque a memória ninguém asfalta.
Antônio Carlos Prata
AS TRANSFORMAÇÕES DA PRAÇA RUI BARBOSA E DE SEU ENTORNO
Na antiga Praça Rui Barbosa, no coração de Uberaba, espaço que ao longo das décadas passou por inúmeras transformações, uma fotografia da década de 1970, de autoria desconhecida, registra um fragmento vivo da história da cidade.
No primeiro plano erguia-se o belo obelisco em estilo Art Déco, obra do renomado artista Humberto Cozzo. Construído entre 1939 e 1941, o monumento foi dedicado ao governador mineiro Benedito Valadares e também ao centenário de Uberaba, simbolizando uma cidade orgulhosa de sua vocação pecuária e de seu espírito progressista. Sua inauguração contou com a presença do presidente Getúlio Vargas, numa visita que marcou profundamente a memória local. O obelisco permaneceu na praça até o início da década de 1990, quando sua estrutura de mármore foi remontada no Parque Fernando Costa, no parque da ABCZ.
Mais adiante, como uma sentinela silenciosa da história, encontrava-se a estátua do Major Eustáquio, fundador da cidade, presente da colônia sírio-libanesa, gesto de gratidão e pertencimento daqueles que também ajudaram a construir o destino de Uberaba.
À esquerda, um antigo sobrado conhecido como Notre Dame de Paris, hoje Hotel Chaves, guardava sua elegância arquitetônica, testemunha discreta das mudanças da cidade.
Próximo dali, entre as árvores que hoje escondem parte da memória, funcionou por décadas o tradicional Bar 1001, um verdadeiro ponto de encontro. Ali se conversava sobre política, futebol, negócios e a própria vida. Foi também um lugar onde o médium Chico Xavier muitas vezes parava para um café simples, cercado pelo carinho silencioso de quem o reconhecia.
Seguindo à direita, em direção à Rua Vigário Silva, as árvores hoje ocultam o que antes fazia parte do cotidiano urbano. Ali existia uma banca de revistas, ponto de encontro de leitores e curiosos. Um pouco adiante ficava a tradicional Ótica de seu Lilito Chaves, seguida pela famosa Livraria ABC, de Mário Rosa e Benedito Eurípedes Carmelita. Na parede lia-se uma frase que ficou marcada na memória da cidade:
“As maiores inteligências do Brasil passaram pela ABC.”
Mais à frente havia um posto de saúde com um longo corredor onde eram realizados exames de imagem torácica, como a antiga abreugrafia, utilizada para detectar tuberculose e também em exames de admissão de emprego.
Era comum ver verdadeiros varais com radiografias penduradas para secar, expostas à vista de quem passava, uma cena curiosa e típica de um tempo em que a medicina preventiva fazia parte do cotidiano.
Seguindo adiante surgiam outros marcos urbanos: o tradicional jornal Lavoura e Comércio, a Loja Americana e, em frente, o antigo Hotel do Comércio, hoje desaparecidos, levados pelas transformações do tempo.
À esquerda, logo abaixo do prédio Notre Dame de Paris, existiam outras referências queridas da memória urbana: uma loja de brinquedos, a Farmácia Triângulo, o armazém Barros e Borges e a tradicional Padaria Brasil, de seu Clarimundo e dona Thomásia.
Ao lado da padaria funcionava o Manogra, ponto famoso onde se jogava sinuca e onde se reuniam alguns dos melhores sinuqueiros da cidade. Hoje, naquele espaço, encontra-se a loja Têxtil Abril.
Em frente à praça, os táxis formavam uma fileira quase cerimonial. Os carros do ano, bem alinhados e reluzentes, aguardavam passageiros com a paciência serena de um tempo em que a pressa ainda não dominava as cidades.
Ao fundo, seguindo pela antiga Rua do Comércio, hoje Rua Arthur Machado, surgiam sinais da modernidade: a loja Modelar e o edifício da Drogasil, inaugurado em 10 de outubro de 1966. A rua viria mais tarde a se transformar no calçadão, inaugurado em 18 de novembro de 1994, mudando novamente a paisagem do centro da cidade.
No entorno da praça existiam ainda muitos outros pontos que fazem parte da memória de Uberaba: o Bar Ana Rosa, o vizinho Cine-Teatro São Luís, o tradicional Jóquei Clube, a Panificadora Monte Líbano, que funcionava no térreo do edifício Vitório Varotto, além da Casa Caldeira, do Café da Praça e da elegante loja Caprichosa.
Mas vou parando por aqui… são tantas lembranças que caberia quase um livro inteiro.
Deixo agora com vocês, para que cada um também possa ativar suas próprias memórias.
Assim era aquela praça: um palco onde passado, cotidiano e memória caminhavam juntos. Cada árvore, cada fachada e cada carro estacionado compunham um cenário que hoje sobrevive não apenas nas fotografias, mas também na saudade de quem viveu aquele tempo em que Uberaba parecia caber inteira dentro de sua praça.
Antônio Carlos Prata
ALDO ROBERTO, O TL DO CAZARRÉ E O TEU DA RUA ALAOR PRATA
Volkswagen TL semelhante ao que pertenceu ao ator Older Cazarré e que protagonizou uma divertida história nos bastidores do Teatro Experimental de Uberaba, na década de 1970. Foto de acervo de Uberaba em Fotos.
Vou contar um episódio que aconteceu comigo, com Aldo Roberto Silva, o Salsichachau e o Natal Raphael, hoje barbeiro, filho do saudoso Domingos Caparrelli, o “General Barbeiro”.
Isso aconteceu em meados da década de 1970, na porta do Teatro Experimental de Uberaba, que funcionava na Rua Alaor Prata, nº 20.
Naquele dia estava em cartaz a peça Marido, Matriz e Filial, estrelada pelo ator Older Cazarré, ao lado das atrizes Ivete Bonfá e Georgia Gomide.
Eu e o Natal tínhamos 12 ou 13 anos. Éramos amigos de infância e vizinhos.
Já Aldo Roberto Silva, além de ator e diretor, fazia de tudo no teatro: cenografia, figurino, iluminação, maquiagem e até faxina quando precisava.
Quando morou em São Paulo, Aldo chegou a fazer novela de rádio e fez amizade com vários atores e atrizes. Depois passou a convidá-los para trazer suas peças para se apresentarem em Uberaba.
No teatro havia um bar, e todo o caixa era responsabilidade do Aldo. Eu e o Natal ajudávamos durante o intervalo das peças, servindo o público.
O elenco de Cazarré entraria em cena às 19 horas.
De repente, o Aldo percebeu que tinha esquecido de comprar gelo. Na mesma hora pediu a chave do carro ao Cazarré, um Volkswagen TL azul, impecável, dizendo que iria comprar gelo e voltaria rapidinho.
Cazarré respondeu na hora:
"Nunca! "Aqui não". "Não empresto o carro!" "Você não sabe dirigir!"
Mas o Aldo era bom de conversa e insistiu tanto que acabou convencendo o ator a emprestar o carro.
E lá fomos nós três: Aldo ao volante, eu no banco da frente e o Natal no banco de trás.
Na hora de sair, o Aldo apanhou um pouco para engatar a marcha e não conseguiu controlar direito a embreagem. O carro deu um arranco, voltou um pouco em diagonal e acabou batendo em outro carro que estava estacionado, amassando a lateral direita do lado do passageiro.
A lata era dura, mas afundou o paralama e chegou a apertar o pneu. O Aldo e algumas pessoas que estavam por perto puxaram a lataria para não pegar na roda.
Nessa hora já tinha gente olhando, porque o movimento na porta do teatro começava a aumentar.
O Aldo olhou o estrago e disse com a maior calma do mundo:
" Ahhh… isso é só um amassadinho de nada."
Entramos no carro novamente e ele saiu cantando pneus.
Enquanto isso, já começava a formar fila na porta do teatro.
Fomos primeiro na peixaria Pororoca, no final da Rua Tristão de Castro. Não tinha gelo.
Seguimos então para a Pescave, na Avenida Prudente de Moraes. Lá conseguimos o gelo.
Foi nesse momento que descobrimos uma coisa: o Aldo era “barbeiro” no volante.
Na volta, faltando poucos minutos para começar a peça, o Cazarré estava na porta do teatro esperando, com as veias do pescoço saltadas de nervoso.
"Aldo, eu te mato!"
O Aldo, tranquilo como sempre, respondeu:
"É só um arranhadinho de nada… sua peça cobre isso e ainda sobra dinheiro! Cazarré para de birra".
Cazarré continuou esbravejando até chegar ao bar.
Então o Aldo abriu um refrigerante, deu um beijo no Cazarré e tudo terminou em risada.
No dia seguinte, mesmo com o carro amassado, o Cazarré seguiu viagem com as atrizes para Araxá.
Peguei esta foto apenas para ilustrar o carro, um Volkswagen TL semelhante ao que o ator Older Cazarré tinha na época, usado naquela corrida atrás de gelo antes da peça no Teatro Experimental de Uberaba, na Rua Alaor Prata, em Uberaba.
Antônio Carlos Prata
BAR L&M, TRADIÇÃO E PROSA BOA DESDE 1978
Fundado em 1978, o Bar L&M, dos irmãos Luiz e Marcos, é um marco tradicional de Uberaba. Localizado na Rua Governador Valadares, 350, o bar se tornou ao longo dos anos um verdadeiro ponto de encontro de amigos.
Ali, o ambiente é simples, bem ventilado e acolhedor, lugar onde o freguês chega, encosta o cotovelo no balcão, puxa uma prosa, conta um causo e deixa a conversa correr solta.
No cardápio, o cliente encontra clássicos de boteco que conquistaram gerações: torresmo crocante, o famoso bauru dos deuses, tilápia ao alho, frango a passarinho, carne de panela com mandioca frita, além de salgados e diversas porções caprichadas.
Para acompanhar, todas as marcas de cerveja sempre bem geladas, do jeito que o brasileiro gosta.
Com o passar do tempo, o bar ganhou apelidos carinhosos. Muitos o chamam de “Bar do Cotovelo”, por estar localizado bem na virada da rua, ponto perfeito para encostar e conversar. Também ficou conhecido como “Bar dos Aposentados”, já que por ali se reúnem velhos amigos, histórias de uma vida inteira e memórias da cidade.
Mais que um bar, o Bar L&M é parte viva da história e do cotidiano de Uberaba: um lugar onde a amizade é antiga, a conversa é boa e a memória da cidade continua sendo contada dia após dia.
Funcionamento:
Aberto de segunda a segunda, das 7h às 23h.
Antônio Carlos Prata
PARQUE FERNANDO COSTA, GPS ERA A BANDEIRA DO BRASIL E O PALANQUE
O ponto de encontro de gerações de
Parei em frente à bandeira do Brasil e bati essa foto para lembrar com vocês e compartilhar.
Bateu aquela lembrança de um tempo pré-histórico antes do celular existir.
Naquela época, perder alguém em festa não era acidente, era praticamente tradição familiar. No meio da multidão, de repente vinha a voz do locutor pelo Parque Fernando Costa:
“Eita, meninada perdida essa de Uberaba!!!"
E não era pouca gente, não. Principalmente os pestinhas, esses tinham carteirinha VIP no alto-falante. Era só soltar a mão por 10 segundos que pronto, já viravam atração oficial do evento.
E não pense que a culpa caía só nos pais. Nada disso. Entrava todo mundo no pacote: pai, mãe, avó, avô, bisavô, papagaio, periquito, parecia chamada de reunião de condomínio. O locutor não economizava, anunciava a árvore genealógica completa. Só faltava puxar o CPF e o histórico escolar da criança.
E ainda soltava com naturalidade: “Tá aqui no palanque e não tá nem chorando mais não, viu!”
Virava quase um programa de auditório. E o “perdido”? Perdido nada, já estava enturmado, tranquilo, às vezes até com cara de quem queria pegar o microfone e ajudar nos próximos anúncios.
Geralmente ficavam ali perto das bandeiras dos estados ou do mastro da bandeira do Brasil, como quem diz: “Se precisar, tô disponível.”
Hoje reparei: no tempo que estive com meu filho, só uns gatos pingados se perderam. Evoluímos ou talvez não.
Porque observei, bem disfarçado, que tinha gente estrategicamente parada perto do mastro. Vai que, né, uma nostalgia bate, uma fama repentina aparece.
Hoje o povo se perde e se acha no celular. Antes se perdia e ainda saía famoso no Parque Fernando Costa.
Antônio Carlos Prata
UBERABA DOS ANOS 70 ENTRE RODEIOS TRADIÇÕES E MULTIDÕES
Pista de julgamentos e o palanque com suas escadarias mostram bem como tudo era original no Parque Fernando Costa. Foto: Renato Peixoto Júnior.Trago uma foto de Peixotinho, lá da década de 1970, pra gente viajar no tempo. A cerca de madeira, a pista de julgamentos e o palanque com suas escadarias mostram bem como tudo era original no Parque Fernando Costa.
Era tempo de multidão, com grandes cantores à noite e rodeios durante o dia. Na arena, o locutor animava tudo, sempre com uma sátira sobre o montador, arrancando risadas e levantando o público.
Logo na entrada e pelo parque, chamava atenção a bandeira do Brasil erguida, rodeada pelas bandeiras dos estados, tremulando ao vento e dando aquele ar de grandiosidade. Espalhadas por todo lado, muitas propagandas de fazendas, tratores e equipamentos agrícolas reforçavam a força do campo e o peso do agronegócio na exposição.
Os pavilhões de cavalos e zebus eram um espetáculo à parte. Tratadores conviviam com os animais, alguns até dormindo em redes armadas no alto. A abertura oficial reunia a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, autoridades, governadores, gente do Brasil e do mundo, e até presidentes da República marcavam presença.
Entre as figuras conhecidas, estava Badú Rocha, com seus cabritos e porcos de raça, sempre caprichoso no chiqueiro e no capril.
O parque era um verdadeiro mosaico cultural, com baianas fazendo acarajé, gaúchos, nordestinos e gente de toda parte. As mulheres desfilavam com botas e chapéus, cheias de charme.
Tinha de tudo um pouco: barraca do vinho, parque infantil com o grande tobogã, quebra-queixo, maçã do amor e pipoca no saquinho de papel. E no meio da festa, muita bexiga colorida, de vários formatos, enfeitando o parque e alegrando a criançada. E o restaurante Chopim, parada obrigatória pra boa comida e prosa.
Do lado de fora, a movimentação continuava. A avenida Marcos Cherém tinha a boate Vira Copos e o tradicional Bar do Nakayama, ponto certo de encontro, sempre cheio, com conversa animada, cerveja gelada e tira-gosto no balcão, naquele clima simples e acolhedor que só quem viveu sabe. Na avenida Fernando Costa, o Bar do Dica era referência. A antiga boate que virou o Espelhão reunia gente de todo tipo, e a Rua São Lourenço completava o cenário da época.
Estacionar era fácil, o dia rendia, e os táxis, Corcel, Simca e Opala, cruzavam a cidade. E ali estavam os choferes Zé de Castro e Baía, figuras conhecidas, sempre bem apresentados, com carros grandes e de respeito, levando autoridades e sendo parte viva daquele tempo.
Era uma Uberaba viva, intensa, cheia de encontros, sons e histórias. Um tempo que passou, mas nunca saiu da memória.
Antônio Carlos Prata
POR TRÁS DOS TAPUMES O PALACETE RESSURGE EM UBERABA
Hoje tirei esta foto do alto para mostrar o andamento das obras, já que os tapumes impedem a visão de quem passa a pé ou de carro.
Construído em 1903, o casarão de estilo chalet (eclético), projetado pelo engenheiro Alexandre di Gusberti, foi residência de Getúlio Guaritá. Mais tarde, foi adquirido pela Arquidiocese de Uberaba para abrigar o Bispo Diocesano, passando a ser chamado Palácio Episcopal São Luiz, conhecido como Palacete do Bispo.
A partir da década de 1990, o prédio deixou de ser residência e passou a ter outros usos, como o Jornal de Uberaba e escolas. O imóvel segue pertencendo à Cúria Metropolitana de Uberaba.
Atualmente, passa por restauração, com previsão de conclusão em 2026. O projeto preserva a arquitetura original e transforma o espaço em um centro comercial e cultural, com cerca de 20 lojas, áreas de convivência e estacionamento.
Na foto, já se vê o avanço das obras, com novas estruturas sendo erguidas ao redor pelo sistema de construção a seco, integrando o antigo ao moderno e contribuindo para a revitalização do centro de Uberaba. A obra está sendo executada pela Construtora Toubes.
Antônio Carlos Prata
MÁRIO SALVADOR, O ETERNO TIO MÁRIO, DEIXA LEGADO DE AMOR E DEDICAÇÃO EM UBERABA
É com o coração profundamente entristecido que comunico o falecimento de Mário Salvador, o nosso eterno e querido “Tio Mário”.
Nascido em Araguari, em 14 de janeiro de 1935, construiu em Uberaba uma trajetória que ultrapassa qualquer currículo: construiu histórias, formou gerações e espalhou afeto por onde passou. Seu jeito simples, acolhedor e sempre próximo fez com que fosse abraçado por todos, especialmente pelas crianças, que lhe deram o mais bonito dos títulos: “Tio Mário”. Um nome que nasceu do carinho e o acompanhou por toda a vida.
À frente do programa infantil Roda Gigante, exibido pela extinta TV Uberaba nas décadas de 1970 e 1980, levou alegria, ensinamentos e encantamento a inúmeros lares. Como idealizador do Clube do Tio Mário, dedicou-se à formação de jovens, incentivando a leitura, o respeito e a cultura, ajudando a moldar cidadãos e sonhos.
Sua caminhada foi marcada por uma atuação intensa e comprometida em diversas áreas. Foi editor responsável do Correio Católico na década de 1970; diretor executivo do Jornal da Manhã por cerca de 10 anos, onde também assinava a coluna “Comentando”; advogado do SESI durante a implantação do FGTS; professor no SENAC, professor de Direito Tributário na Faculdade de Ciências Econômicas e docente de Contabilidade no Colégio São Judas Tadeu; diretor executivo do Uberaba Tênis Clube por mais de duas décadas; presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro; sócio-fundador do Rotary Club Uberaba Leste; presidente da Associação de Aposentados e Pensionistas de Uberaba; além de ter presidido a Fundação Cultural de Uberaba, o Arquivo Público e o CODEMPHAU.
Mais do que títulos e funções, deixa um legado humano incomparável: o de quem viveu para servir, ensinar e acolher. Uberaba se despede hoje de uma de suas figuras mais queridas, mas sua presença permanece viva na memória de todos, crianças, jovens e adultos, que tiveram o privilégio de conviver com sua generosidade e alegria.
Hoje nos despedimos não apenas de um homem, mas de uma presença rara, daquelas que iluminam vidas e deixam marcas profundas. Ficam as lembranças, os ensinamentos, os gestos simples e o sorriso acolhedor que jamais será esquecido.
Que Deus o receba em Sua infinita paz e que conforte o coração de todos os familiares e amigos.
“Tio Mário” não se vai por completo… porque quem planta amor, permanece para sempre no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.
O velório será realizado a partir das 16h30, na LIV, localizada na Avenida Edilson Lamartine Mendes, 137, no bairro Parque das Américas, em Uberaba, em frente ao portão da ABCZ.
Será um momento de despedida marcado pela saudade, mas também pela gratidão, um encontro de corações para homenagear quem tanto fez pelo próximo.
Até o momento, não há confirmação sobre o horário do sepultamento.
Antônio Carlos Prata
TOTINHO, O HÓSPEDE FANTASMA DO GRANDE HOTEL
Vou contar um causo bastante conhecido do passado, lá no início dos anos 1970. Vou ser breve, peço perdão.
José Antônio Costa, o famoso Totinho, filho de Dona Ana, zeladora do Grupo Escolar Brasil, cresceu entre corredores, histórias e o vai e vem da cidade. Ruivo, cheio de pintinhas e dono de uma lábia afiada, era o típico “pau pra toda obra”, sempre disposto a ajudar em qualquer situação.
No meio da comunicação, entre rádio e TV, fazia um pouco de tudo. Tinha uma esperteza afiada, carisma de sobra e uma conversa que abria portas como mágica. Sempre bem vestido e cheiroso, era figura conhecida nos cinemas, teatros, barzinhos do centro acadêmico e nas rodas boêmias da cidade.
Quase sempre “durango”, sem lenço e sem documento, mas nunca sem companhia.
Totinho tinha o dom raro de transformar conversa em convite, e convite em rodada paga.
E foi assim que, numa noite no Bar da Viúva, se aproximou de um viajante solitário. Em poucos minutos, já dividiam pizza, cerveja e confiança. Quando o turista comentou que precisava economizar com hospedagem, Totinho não pensou duas vezes:
"Relaxa… tô no Grande Hotel. Tem cama sobrando."
Saíram caminhando pelo centro. Ao chegar em frente ao hotel, Totinho pediu que o homem aguardasse na calçada. Minutos depois, apareceu acenando da varanda do Bar Galo de Ouro, como se fosse hóspede antigo confirmando a entrada.
Na verdade, apenas subira, usara o banheiro e saíra discretamente.
A noite seguiu animada no Restaurante Bar Tip-Top, ali embaixo da ACIU, entre risadas, conversa solta e copos cheios… até que, na hora de acertar a conta, Totinho simplesmente desapareceu.
O viajante seguiu então para o Grande Hotel, confiante na tal “cama sobrando”. Ao chegar, percebeu que havia sido personagem de um dos causos mais engenhosos da cidade.
Mesmo assim, pagou a despesa e, curiosamente, saiu satisfeito, levando na bagagem uma história que valia mais que o dinheiro.
Porque Totinho era isso: malandragem leve, simpatia e uma figura inesquecível da Uberaba boêmia.
Infelizmente, teve um fim precoce. Vítima do alcoolismo, em tratamento no interior de São Paulo, saiu desorientado e acabou sendo atacado por abelhas.
Uma história hilária, com um desfecho triste, como tantas da vida real.
Imagem gerada por IA para fins de ilustração.
Antônio Carlos Prata
OS LEITEIROS DA COPERVALE, OS LATICÍNIOS E A UBERABA QUE O TEMPO GUARDOU
Foto gerada por inteligência artificial para ilustrar o texto sobre os antigos leiteiros da Copervale e a paisagem urbana de Uberaba nas décadas de 1960 e 1970.Cooperativa Regional dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande - Copervale, instalada na antiga Praça Manoel Terra, onde hoje funciona um posto de combustível, foi, durante as décadas de 1960 e 1970, um dos símbolos mais vivos da paisagem humana de Uberaba. Este casarão foi a sede da Copervale, onde funcionou por décadas, tornando-se um dos pontos mais conhecidos e tradicionais daquela região da cidade.
Naquele tempo, o Córrego Olhos d’Água ainda corria aberto. Vizinha ao Mercado Municipal, a Copervale acompanhava o curso do córrego, margeado por balaustradas até as proximidades do antigo Cine Uberaba Palace. A avenida era iluminada e arborizada dos dois lados, compondo um dos cenários mais marcantes da Uberaba antiga.
O Córrego Olhos d’Água encontrava-se com o córrego da Avenida Guilherme Ferreira, conhecido como Córrego Barro Preto. A partir dessa junção, recebia o nome de Córrego das Lajes, fazendo parte importante da geografia urbana e afetiva da cidade.
Naqueles tempos, os leiteiros percorriam ruas, avenidas e bairros de Uberaba em suas tradicionais carroças-baú totalmente brancas, puxadas por cavalos, levando leite fresco de porta em porta. Vestiam-se de maneira simples: o latão de bico numa das mãos, o caneco medidor na outra e a carroça carregada de grandes latões de leite.
Com o passar dos anos, o leite também passou a ser vendido em garrafas de tampa prateada e, depois, nos conhecidos saquinhos plásticos. Os produtos traziam estampada a tradicional logomarca em forma do Triângulo Mineiro, além das marcas Trianon e Produtos Centenário, muito conhecidas pelos uberabenses da época.
Antes mesmo de dobrar a esquina, o leiteiro já era reconhecido pelo som característico da pequena campana de freio de automóvel presa à lateral do banco do carroceiro. Com um pedaço de ferro, ele batia naquele aro metálico improvisado, produzindo um som inconfundível pelas ruas ainda tranquilas da cidade. Em seguida vinha o grito comprido e inesquecível:
“Olha o leiteiroooooo!”
As donas de casa saíam apressadas com suas vasilhas leiteiras nas mãos, enquanto as crianças observavam fascinadas aquele ritual diário. O leite era retirado diretamente dos grandes latões transportados na carroça.
Muitos desses recipientes possuíam uma pequena torneira para facilitar a retirada do leite. Quando não havia torneira, o próprio leiteiro utilizava uma caneca metálica padronizada e dosada, medindo cuidadosamente a quantidade deixada para cada freguês.
Uberaba possuía então uma coleção de figuras populares que davam alma às ruas. Havia os verdureiros, os compradores de garrafas, o homem do algodão-doce, o vendedor de picolé, o do pirulito, cada qual com seu pregão característico. E havia também o inesquecível “Seu” Roque Manuel da Silva, o lendário “Roque do Biju”, cujo triângulo metálico fazia a meninada correr para dentro de casa atrás de algumas moedas.
No meu tempo de criança, lembro exatamente dessas cenas que hoje compartilho com vocês. Eram momentos simples, profundamente marcantes, guardados na memória afetiva de toda uma geração.
Esses personagens ajudaram a construir a identidade popular de Uberaba. Eram sons, vozes e costumes que hoje pertencem à história sentimental da cidade, uma época em que o leiteiro da carroça branca não vendia apenas leite fresco, mas também convivência, proximidade e humanidade.
Antônio Carlos Prata
FUMANCHU, ENTRE O APITO, O MEGAFONE E A VIDA
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Quem viveu Uberaba entre os anos 1970 e 1998 certamente se lembra. Era fim de tarde, o comércio cheio, e lá vinha ele, passo miúdo, bigode marcante, megafone de latão na mão, sempre acompanhado de um fiel cachorro.
José Estanislau da Silva. Mas ninguém o chamava assim. Para todos, era apenas Fumanchu.
Morou por um tempo na Rua Pedro Floro, no bairro Estados Unidos, nos fundos de um terreno cedido por Ovídio De Vito. O acesso era por um corredor estreito de terra batida, cercado de arbustos, caminho simples, como a própria vida que levava. Ao longo dos anos, passou por outros cantos da cidade, até terminar seus dias em um espaço modesto nos fundos da Biblioteca Municipal.
Figura solitária em tempos de muito preconceito, Fumanchu encontrou, à sua maneira, um jeito de existir, e de ser querido. Era amigo da criançada, sempre com um sorriso fácil, mesmo carregando o peso do álcool e do cigarro.
Mas era no som do seu megafone que ele se tornava inesquecível. Pelas ruas e avenidas, sua voz ecoava firme: “Atenção, desportistas! Hoje no Uberabão… Uberaba Sport Club e Nacional Futebol Clube!”
O anúncio cortava quarteirões, atravessava o córrego ainda aberto da Avenida Leopoldino de Oliveira, misturando futebol e cotidiano, como se fosse a própria voz da cidade.
E nos clássicos contra o Uberlândia Esporte Clube, vinha a frase que virava tradição: “Hoje é dia da onça beber água!”
Em um momento de virada, buscou ajuda no CEREA — Centro de Recuperação de Alcoólatras, com o apoio do Dr. Antônio José de Barros e de Jesus Mazano. Ali, entre relatos de vida e pequenas vitórias, encontrou forças para recomeçar e chegou a ser exemplo para outros.
Tentou reconstruir sua vida. Montou uma pequena oficina de sapatos na Rua Coronel Manoel Borges, em frente à antiga Sociedade Rural. Trabalhou por anos, conversando, rindo, vivendo com dignidade. Mas a vida cobrou seu preço: vendeu o ponto, e o dinheiro o levou de volta ao vício.
Ainda assim, Fumanchu nunca deixou de ser lembrado com carinho. Porque há pessoas que não pertencem apenas ao seu tempo, pertencem à memória afetiva de uma cidade.
Fumanchu partiu em 18 de janeiro de 1998.
Mas há vozes que o tempo não apaga.
Basta fechar os olhos, e lá vem ele outra vez, atravessando as ruas e a lembrança de Uberaba:
“Atenção, desportistas! Hoje no Uberabão…”
Como se a vida fosse, para sempre, uma eterna tarde de domingo.
Antônio Carlos Prata
segunda-feira, 1 de junho de 2026
TRAJETÓRIA DE UMA BRILHANTE EDUCADORA UBERABENSE
domingo, 10 de maio de 2026
UBERABA SE DESPEDE DAS LENTES DE RICARDO PRIETO
Ricardo Prieto/ Foto autoria desconhecida
Há pessoas que passam pela vida apenas vivendo. Outras, porém, deixam marcas tão profundas que acabam se confundindo com a própria história da cidade. Assim foi Ricardo Prieto, o querido Prieto, homem de olhar atento, sensível e paciente, que transformou a fotografia em memória viva de Uberaba.
Durante décadas, suas lentes acompanharam a vida uberabense como quem escreve silenciosamente um grande livro de recordações. Quantos carnavais coloridos ficaram eternizados em seus negativos. Quantos casamentos emocionados, batizados, festas, encontros familiares e momentos simples da vida cotidiana ganharam eternidade através de sua câmera. Prieto não fotografava apenas pessoas; registrava sentimentos, costumes e o tempo passando devagar pelas ruas da cidade.
Formado em advocacia, também dedicou parte de sua vida à vida pública, exercendo o cargo de vereador entre 1989 e 1993. Mas, mesmo nos espaços da política, nunca deixou de carregar consigo o olhar humano e observador de quem aprendeu a enxergar além das aparências.
A história fotográfica de Uberaba deve muito a ele. Seu trabalho preservou rostos, cenários, tradições e pedaços de uma cidade em constante transformação. Graças ao seu olhar, muitas lembranças continuam vivas, permitindo que gerações revisitem tempos que talvez já tivessem se perdido na poeira da saudade.
Atualmente residindo em Taubaté, Prieto levava consigo não apenas décadas de experiência, mas também o carinho de amigos, colegas e admiradores que aprenderam a respeitar sua simplicidade, generosidade e profissionalismo. Era daqueles homens discretos que não precisavam elevar a voz para serem lembrados. Sua presença se fazia notar pelo respeito que conquistou ao longo da vida.
Apaixonado pelo futebol, carregava também no coração seu amor pelo Sociedade Esportiva Palmeiras, sendo um torcedor palmeirense daqueles fiéis, que acompanhavam o clube com entusiasmo e orgulho, como quem cultiva uma paixão para toda a vida.
Agora, parte para reencontrar sua querida esposa Ilka, que se foi em 2013. E fica a impressão de que, em algum lugar do infinito, os dois talvez estejam revendo juntos as antigas fotografias da vida, aquelas que o tempo jamais conseguirá apagar.
Sua partida deixa silêncio e saudade, mas também deixa um legado precioso: o de alguém que soube compreender a importância da memória e eternizar instantes que hoje pertencem à alma de Uberaba.
Manifestamos nossos mais sinceros sentimentos aos filhos, netos, familiares e amigos, desejando força e serenidade neste momento de despedida.
Prieto presente. Hoje, amanhã e sempre na memória e na história de Uberaba.
O velório de Ricardo Prieto será realizado neste dia 10 de maio de 2026, a partir das 11h, na Funerária Memória Família, na cidade de Taubaté.
O horário da cerimônia de cremação ainda não foi definido pela família.
Antônio Carlos Prata
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
TUM, TUM, TUM, O CORSO QUE SAIU DOS TRILHOS NO CARNAVAL DE UBERABA
Não vou ser breve. Há memórias que precisam ser contadas do jeito que foram vividas. Quem esteve lá vai reconhecer cada cena. Quem não esteve vai entender por que aquele carnaval ficou marcado na história de Uberaba.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
GALILEU, O CRONISTA NETINHO
Peguei esta tela de Cacilda Mariano para ilustrar estas memórias.
Lembro-me bem daquele tempo em que a vida cabia inteira numa rua. Eu tinha meus dez anos. Éramos vizinhos. Ataliba Guaritá Neto, o Netinho, morava na Rua Segismundo Mendes com a esposa Cornélia e os filhos, Luiz Neto e Dulce Helena. Na esquina, quase como uma presença que completava a harmonia do lugar, vivia Dona Niza, sua mãe, sempre elegante, dessas mulheres que marcavam o ambiente apenas pelo porte, pelo olhar e pela palavra bem medida.
Às vezes, eu a via no parapeito do alpendre, observando o movimento das ruas Alaor Prata e Segismundo Mendes. Outras tantas, via Netinho trocando acenos: um gesto carinhoso para a mãe, um tchau apressado ou um beijo à distância. Cenas simples, cheias de afeto. Sempre apaixonado pelos filhos e profundamente respeitoso com a mãe.
Nós, meninos da rua, todos vizinhos, andávamos de patinete de rolimã, descendo e subindo a calçada cheios de pressa e alegria. Quando não estávamos no patinete, jogávamos bola ou soltávamos pipa. Éramos uma turma formada pela proximidade das casas e pela convivência diária. Dona Niza, atenta do alto do alpendre, chamava nossa atenção com doçura. Pedia que passássemos devagar pela calçada, com cuidado, para não nos machucarmos. Não era bronca, era zelo. Um conselho dito com carinho, desses que a gente guarda para sempre.
Luiz Neto jogava bola no pátio da Igreja São Domingos. Netinho subia a rua para assistir. Ficava do lado de fora da grade ou, quando podia, entrava. Torcia como poucos. Quando o filho fazia um gol, vibrava sem disfarçar. E Luiz Neto era bom jogador. Dona Niza foi professora de francês.
Essa formação transparecia naturalmente em tudo: na postura, na delicadeza dos gestos, no modo correto de falar. Usava quase sempre um colar de pérolas; os cabelos grisalhos, num tom de cinza claro. Sempre bem vestida, era símbolo de uma elegância clássica, discreta e permanente, que o tempo não conseguiu apagar.
A família tinha um cachorro da raça pequinês chamado Parafuso, pequeno no tamanho, mas inquieto como poucos. Parafuso parecia não compreender muito bem os limites do quintal. Volta e meia fugia, atraído pela rua e pela curiosidade. Nessas horas, Netinho me procurava pedindo ajuda. Já sabíamos onde encontrá-lo: ou no gramado da Igreja São Domingos, ou passeando pela "Praça Santa Rita". Quando o encontrávamos, eu o levava de volta. Netinho nos recompensava com sorvetes, e corríamos todos até a sorveteria do "Seu Joaquim", na esquina da "Praça do Grupo Brasil". Netinho ficava feliz. O Parafuso, nem tanto. A liberdade sempre lhe pareceu melhor destino.
Ataliba Guaritá Neto nasceu em 27 de junho de 1924 e faleceu em setembro de 2000, aos 76 anos. Foi vereador entre 1951 e 1955, mas foi na comunicação que construiu seu legado mais duradouro. Como jornalista, tornou-se amplamente conhecido pelo pseudônimo Galileu, com o qual assinou, por 45 anos, a coluna Observatório de Galileu, no jornal Lavoura e Comércio, acompanhando atentamente a vida política, social e cultural de Uberaba.
Pioneiro na televisão regional, foi o primeiro a apresentar um programa ao vivo na TV Triângulo, atual TV Integração, e também na TV Uberaba. Criou o programa Bigorna. No rádio, destacou-se como comentarista esportivo e participou das transmissões da Copa do Mundo da Argentina, em 1978. Mas foi ao meio-dia que Galileu se tornou definitivamente parte da rotina da cidade. Ao som de Vera em Veneza, executada pela orquestra de Mantovani, apresentou por mais de quarenta anos, na Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro, a inesquecível Crônica ao Meio-Dia, sempre ao encontro dos ponteiros, no instante exato em que o relógio parecia parar para ouvi-lo.
No final da década de 1970, sua voz já estava incorporada ao cotidiano de Uberaba. Era mais do que informação: era provocação inteligente, reflexão diária, conversa direta com o ouvinte, batendo na cachola e atiçando consciências, despertando pensamentos e convidando a cidade a olhar para si mesma.
Além do rádio, do jornal e da televisão, Netinho foi também um grande animador da vida social e cultural de Uberaba. Criou e promoveu concursos que marcaram época. Ao longo do ano, observava jovens mulheres que se destacavam pelo porte, pela presença e pela elegância. Ao final desse período, eram escolhidas As 10 Brotos do Ano. A escolha acontecia durante a tradicional Festa Brotos do Ano, realizada no Jóquei Clube. Eram eventos aguardados com grande expectativa, retratos vivos dos costumes, da juventude e do espírito daquele tempo.
Foi ainda promotor do concurso Miss Minas Gerais, atuando como coordenador e um dos principais organizadores das etapas locais e regionais que levavam à escolha da representante mineira para o Miss Brasil. Em 1971, apresentou o concurso Miss Minas Gerais, confirmando sua versatilidade e carisma como comunicador e mestre de cerimônias.
O improviso era sua maior virtude. Um talento raro, ainda não repetido. Galileu falava de Uberaba com intimidade, crítica e carinho, como quem conversa com um velho amigo. Amava a cidade e estendia esse amor a tudo o que fazia. E assim como o Parafuso gostava de escapar para as praças, Galileu passeava livremente pela alma de Uberaba, provocando, inquietando e permanecendo vivo na memória de quem soube ouvi-lo, ao encontro dos ponteiros, exatamente ao meio-dia.
Antônio Carlos Prata
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
CATETINHO DE UBERABA, O RESTAURANTE QUE VIROU MEMÓRIA NA BR-050
domingo, 2 de novembro de 2025
O DIA QUE O PRATINHA “ESPANTOU URUBU” NA CAIXA
Aconteceu com José Wilson Prata, o querido Pratinha, esse causo que ninguém esquece.
Falar em aposentadoria, pra ele, era o mesmo que chamá-lo pra morte. Homem trabalhador, fazia de tudo na roça: tirava leite, mochava gado, capava porco, arava terra.
O Pratinha era de rotina simples e coração grande. Acordava cedo, tomava seu café coado no coador de pano e cuidava do sítio São José. Filho da Santina Próspero Prata, aquela italiana alegre, faladeira e querida por todo mundo, herdou dela o bom humor e a mania de prosear: onde passava, parava pra conversar com alguém. Era impossível andar com ele pela rua sem ouvir um “Ô Pratinha, cê tá bão?” de algum conhecido.
Mas lá pelos meados dos anos 1990, o sítio São José enfrentou dias difíceis. Veio a crise do leite em Minas, e olha que o leite vive em crise, mas aquela foi das brabas. Os fazendeiros penando pra pagar funcionário, comprar ração, remédio, vacina, energia... Nem tempo sobrava pra cuidar da própria saúde, quanto mais dos dentes.
Foi nessa época que os sobrinhos, amigos, doutor Randolfo Borges Júnior e Wagner Nascimento (que era prefeito) reuniram-se com a Dona Santina pedindo para ela falar com o Pratinha sobre a transferência da aposentadoria dela para ele após seu falecimento.
Ele ficou muito bravo e não aceitou a ideia que eles tinham planejado para ele.
Convencer o homem a aceitar não era tarefa fácil! Quando o assunto era aposentadoria, o Pratinha empinava a carroça mesmo! Ficava bravo, discutia, dizia que era forte, que não tinha doença nem deficiência, e que “esse negócio de aposentar era pra quem não aguentava mais o tranco”.
Um dia, juntaram todo mundo, amigos, parentes e conhecidos, pra conversar com ele, tentar convencer o teimoso. Explicaram, argumentaram... e nada! O Pratinha bufava, cruzava os braços e encerrava o assunto: o homem estava brabo que nem onça chegando.
— Eu não preciso de aposentadoria coisa nenhuma! Eu trabalho, uai! — dizia.
Não aceitava de jeito nenhum.
Foi então que os amigos e familiares armaram tudo por conta própria.
Resolveram o processo, assinaram papel, juntaram documento, e, quando ele viu, a aposentadoria da mãe já estava passada pro nome dele, sem que soubesse de nada.
Até o dia em que… recebeu.
O sobrinho Dauro Prata Loes, o Daurinho, chegou e chamou:
— Tio, bora comigo na Caixa Econômica!
— Uai, pra quê? — perguntou o Pratinha.
— Cê vai ver!
Chegando lá, a funcionária olhou pra ele e disse:
— Uai, não me lembro do senhor aqui, não... O senhor fazia o quê na Prefeitura?
E ele, com aquele humor que era só dele, respondeu:
— Eu trabalhava no matadouro… espantava urubu!
A moça caiu na risada, conferiu os papéis e, quando viu, era um pacotão de dinheiro.
Pratinha arregalou os olhos, enfiou o dedo no bolo e separou três dedos de dinheiro pro Daurinho:
— Toma, menino, pra você gastar!
Daurinho quase pulou de alegria.
Saíram da Caixa de moto, o tio na garupa, e o Pratinha, feliz da vida, começou a bater as pernas como se tivesse montado num cavalo, gritando:
— Êêê boi! Vam’bora, São José!
E lá se foram, rindo, como se a vida tivesse virado pasto de novo.
Na saída, ainda soltou, com aquele sorriso maroto:
— Agora tô bonito no pedaço!
E era mesmo.
Depois daquele dia, nunca mais reclamou de aposentadoria.
Afinal, Pratinha não tinha doença, não tinha deficiência... Só esquecia de um detalhe:
o corpo era de adulto, mas o tamanho... era de menino!
Causo contado pelo sobrinho Dauro Prata Loes (Daurinho).
Texto: Antônio Carlos Prata
Pratinha faleceu em 11 de junho de 2005, mas segue vivo na lembrança dos uberabenses.
UBERABA E A FAMÍLIA BATISTUTA: DO ARMAZÉM À LOJA LA BATISTUTA
O armazém era ponto de encontro do bairro. Cheirava a café torrado, sabão em barra e querosene, que também era vendido ali, junto com gasolina e mantimentos. Com o tempo, os grandes sacos de grãos e tambores de combustível deram lugar a utilitários domésticos, acompanhando as mudanças que modernizavam as casas de Uberaba.
Quando Francisco se aposentou, dividiu o negócio entre os filhos, preservando o espírito familiar que sempre marcou a trajetória dos Batistuta. E assim, em 28 de dezembro de 1966, nascia uma nova fase: a Loja La Batista, herdeira do mesmo trabalho, da mesma honestidade e da mesma vocação para servir.
Após o falecimento do patriarca, em 1974, os filhos Luiz e Adail continuaram o legado, acompanhados de perto pelos netos Humberto Batistuta e Leonardo Batistuta, que cresceram observando o pai e o tio repetirem as lições do avô. Humberto costuma recordar que, nos tempos do velho armazém, o avô vendia “de tudo um pouco”, do feijão ao combustível. e que a confiança era o recibo mais valioso de uma compra.
Hoje, a tradicional Loja La Batista, instalada na Rua São Benedito, 588, esquina com a Avenida Alberto Martins Fontoura Borges, segue em plena atividade. Mantida pela família, continua a simbolizar o que Uberaba tem de mais genuíno: o trabalho honesto, a união entre gerações e o orgulho de fazer parte da história viva da cidade.
E assim, entre lembranças e novos dias, a história da família Batistuta segue pulsando nas ruas de Uberaba, como uma herança que não se apaga. Do velho armazém de secos e molhados à moderna loja de utilidades, permanece o mesmo coração: aquele que fez da dedicação uma tradição e da cidade, um lar que nunca deixa de acolher.
Ambos os comércios sempre no bairro São Benedito, servindo com carinho e constância a cidade de Uberaba.
(Antônio Carlos Prata).
terça-feira, 21 de outubro de 2025
UBERABA, O CRESCIMENTO DE UMA ÉPOCA
Voltando e recordando...




















