Prosear é comigo mesmo! E, naquela conversa, resolvi resgatar a trajetória de vida do Doutor Odo Adão e repasso a vocês.
Peço desculpas, mas o currículo dele é tão extenso que seria impossível contar tudo em poucas linhas. Ainda assim, vale a pena conhecer um pouco da história desse homem que fez da vida uma caminhada de trabalho, estudo, perseverança, medicina e serviço público.
Uma história que começou com dificuldades, com o trabalho ainda na infância, passou pelos corredores dos hospitais, chegou à medicina, à cirurgia plástica, aos congressos internacionais e, posteriormente, à vida pública como vice-prefeito e prefeito de Uberaba.
Mais do que um currículo, o Doutor Odo Adão tem uma história de vida que merece ser conhecida, registrada e contada. Uma trajetória construída com esforço, humildade, conhecimento e dedicação ao próximo.
Foi uma conversa simples, na cantina de um hospital, mas que me fez lembrar que grandes histórias muitas vezes estão sentadas ao nosso lado, esperando apenas alguém para ouvi-las.
Odo Adão nasceu no município de Conquista, Minas Gerais, em 18 de setembro de 1935. Filho de João Pedro Adão, ferroviário, e de uma mãe que trabalhava como cozinheira de fazenda, teve uma infância marcada pelo trabalho, pelas dificuldades econômicas e, sobretudo, pela determinação de construir uma vida melhor.
Aos sete anos, Odo perdeu o pai, João Pedro Adão, vítima da doença de Chagas. Sua mãe, viúva, trabalhava como cozinheira na Fazenda José Malaquias, localizada na zona rural do município de Conquista, nas proximidades da estação Engenheiro Lisboa. Odo vivia com a mãe e a irmã, Ozana Maria Adão.
Desde muito pequeno, aprendeu a conciliar estudo e trabalho. Ainda na zona rural, frequentava a escola e, aos 12 anos, começou a trabalhar como aprendiz de sapateiro em Uberaba, com os Dorfeld, na Praça Santa Teresinha, ao lado de Fenelon.
Mais tarde, por intermédio do fazendeiro Hermógenes Afonso Rezende, conhecido pelo apelido de Zé Malaquias e proprietário da Fazenda José Malaquias, surgiu uma nova oportunidade de trabalho. Quando a família de José Malaquias se mudou para Uberaba, Odo e seus familiares também vieram para a cidade.
Em Uberaba, continuou trabalhando. Chegou a tomar conta de uma linha de leite pertencente a Malaquias. Quando essa atividade foi vendida, passou a trabalhar como ajudante de leiteiro, acompanhando a distribuição do leite pelas ruas da cidade.
O trabalho, entretanto, jamais o afastou dos estudos. Odo concluiu o curso primário no Grupo Escolar Brasil, até o quarto ano primário, e posteriormente ingressou no curso secundário do Colégio do Triângulo Mineiro.
O encontro com Dr. Hélio Angotti
Foi nesse período que sua trajetória encontrou uma das pessoas mais importantes de sua vida: o médico e professor Dr. Hélio Angotti. Reconhecendo o potencial daquele jovem trabalhador, Dr. Hélio Angotti ajudou Odo a estudar no Colégio do Triângulo Mineiro e tornou-se uma figura fundamental em sua formação.
Odo Adão foi diretor do Hospital Hélio Angotti e, na sua gestão, construiu a parte nova do prédio ao lado do antigo.
Dr. Hélio Angotti teve papel de destaque na história da medicina e da saúde em Uberaba e foi um dos fundadores do hospital que posteriormente recebeu seu nome, o Hospital Hélio Angotti, dedicado ao atendimento de pacientes com câncer.
Enquanto cursava o secundário e se preparava para o vestibular de medicina, Odo trabalhava no Hospital Beneficência Portuguesa. Começou como faxineiro e, posteriormente, passou a atuar como enfermeiro prático.
Como havia feito durante toda a vida, estudava e trabalhava simultaneamente. A Beneficência Portuguesa tornou-se, inclusive, sua casa: Odo chegou a morar dentro do próprio hospital.
Foi ali que sua proximidade com a medicina se tornou cada vez maior. Tinha contato diário com pacientes, médicos e procedimentos e passou a acompanhar de perto a rotina hospitalar.
Dr. Hélio Angotti, que atuava como cirurgião responsável pela Beneficência Portuguesa, tornou-se seu protetor, professor e mentor. Confiava naquele jovem e lhe proporcionava oportunidades de aprendizado que seriam decisivas para o futuro.
Sob sua orientação, Odo passou a acompanhar e auxiliar nos cuidados dos pacientes, observando o trabalho médico e, principalmente, as cirurgias. A convivência diária com Dr. Hélio despertou ainda mais seu interesse pela profissão.
A inspiração de um médico negro
Outra figura importante em sua decisão de seguir a carreira médica foi o Dr. Azevedo Costa, médico negro que atuava como clínico geral em Uberaba.
Ao conhecer sua trajetória, Odo percebeu que a medicina também poderia ser um caminho para ele. Segundo seu próprio relato, até então nunca havia imaginado que uma pessoa negra pudesse se tornar médico.
A presença de Dr. Azevedo Costa representou, portanto, não apenas uma inspiração profissional, mas também a possibilidade concreta de enxergar a si próprio naquele lugar.
Determinado, Odo prestou vestibular para medicina. Seu desempenho acadêmico sempre foi diferenciado, resultado de anos de disciplina, estudo e esforço.
Uma ajuda decisiva veio de Dona Cecília Palmério, esposa de Mário Palmério. Ela acreditou no potencial daquele jovem e concedeu-lhe uma bolsa de estudos, contribuindo de maneira fundamental para que pudesse realizar o sonho de cursar medicina.
A aprovação no vestibular representou muito mais do que o início de uma carreira universitária. Era a concretização de uma caminhada que havia começado ainda na infância.
Do menino que trabalhara como aprendiz de sapateiro, passara pela zona rural, fora ajudante de leiteiro e trabalhara como faxineiro e enfermeiro prático, surgia agora o futuro médico.
O médico e o caminho da cirurgia
Depois de formado, Odo Adão construiu uma trajetória de dedicação intensa à cirurgia e ao aperfeiçoamento profissional.
No Hospital Hélio Angotti, então voltado ao tratamento de pacientes com câncer, encontrou um campo de atuação que marcaria profundamente sua carreira: a cirurgia reparadora em pacientes oncológicos.
Seu trabalho ia além da retirada de tumores. Era necessário também reconstruir, reparar e devolver ao paciente, dentro das possibilidades da medicina, sua aparência, sua função e sua dignidade.
Foi nesse contexto que Odo se destacou como cirurgião plástico, tornando-se reconhecido por sua atuação na cirurgia reparadora ligada à oncologia.
A busca pelo conhecimento, porém, nunca terminou. Odo procurava constantemente novas técnicas, novos conhecimentos e novas possibilidades para seus pacientes.
Em sua trajetória de aperfeiçoamento, esteve em Houston, nos Estados Unidos, onde realizou uma especialização em cancerologia durante seis meses. A experiência ampliou seus conhecimentos na área oncológica e fortaleceu sua atuação na cirurgia reparadora de pacientes com câncer.
Seu compromisso com a atualização profissional também o levou a participar de conferências e congressos internacionais. Esteve em Paris e participou de encontros médicos em diferentes países, mantendo contato com especialistas e acompanhando os avanços da cirurgia e da oncologia.
Além da medicina, Odo também se dedicou ao aprendizado de idiomas. Tornou-se poliglota, falando italiano, inglês e alemão, conhecimentos que contribuíram para sua comunicação e participação no ambiente médico internacional.
O encontro e a amizade com Ivo Pitanguy
Entre os capítulos mais marcantes de sua trajetória está a amizade com um dos grandes nomes da cirurgia plástica brasileira, o Dr. Ivo Pitanguy.
A história começou de maneira curiosa e teve novamente Dona Cecília Palmério como personagem importante.
Em determinado momento, Dona Cecília precisou se submeter a uma cirurgia e foi ao Rio de Janeiro para ser operada pelo Dr. Ivo Pitanguy.
Durante o encontro, Ivo Pitanguy teria lhe perguntado por que ela havia ido até o Rio de Janeiro para realizar a cirurgia, se em Uberaba havia um grande cirurgião: o Dr. Odo Adão.
O episódio aproximou os dois médicos.
Posteriormente, Odo e Ivo Pitanguy passaram a se encontrar em congressos e eventos médicos. A relação profissional transformou-se em amizade.
Como recorda Odo:
“Passei a ser amigo de Ivo Pitanguy através de congressos. E ficamos amigos. Eu visitava ele e ele me visitava.”
A amizade entre os dois representa também um momento significativo da história da cirurgia plástica brasileira: dois profissionais que compartilhavam o compromisso com a medicina, com a cirurgia e com o aperfeiçoamento constante.
Da medicina para a vida pública
A trajetória de Odo Adão não ficou restrita aos consultórios, hospitais e centros cirúrgicos.
Com o reconhecimento conquistado junto à população de Uberaba e o compromisso que sempre demonstrou com sua cidade, Odo também entrou para a vida pública.
Foi vice-prefeito de Uberaba e, posteriormente, prefeito do município, assumindo responsabilidades que ampliaram sua atuação para além da medicina.
Sua passagem pela administração pública representou uma nova forma de servir à comunidade. O mesmo homem que havia dedicado sua vida a cuidar de pacientes passou também a lidar com os desafios de administrar uma cidade e trabalhar em benefício da população.
A experiência como médico certamente contribuiu para sua visão da vida pública. Acostumado a lidar diariamente com pessoas, com suas dificuldades e necessidades, Odo levou para a política a experiência adquirida ao longo de sua trajetória profissional e pessoal.
Sua atuação política acrescentou mais um capítulo à história de um homem que nunca se limitou às circunstâncias em que nasceu.
Da pobreza e do trabalho na infância, chegou à universidade.
Da condição de trabalhador dentro de um hospital, chegou à medicina.
Da cirurgia em Uberaba, alcançou centros médicos e congressos internacionais.
E, posteriormente, chegou à administração pública como vice-prefeito e prefeito de sua cidade.
Uma vida dedicada ao trabalho
A trajetória de Odo Adão não pode ser compreendida apenas pelo reconhecimento alcançado na medicina ou pela atuação na vida pública.
Antes do médico, existiu o menino que precisou trabalhar.
Antes do cirurgião, existiu o aprendiz de sapateiro.
Antes do especialista, existiu o ajudante de leiteiro.
Antes do reconhecimento profissional, existiu o jovem que trabalhou como faxineiro e enfermeiro prático.
E antes de todas essas conquistas existiu uma criança que perdeu o pai aos sete anos e que, ao lado da mãe e da irmã, aprendeu desde cedo que seria preciso trabalhar, estudar e perseverar.
Sua história também foi construída por encontros decisivos. Dr. Hélio Angotti acreditou naquele jovem e abriu-lhe as portas do conhecimento. Dona Cecília Palmério ajudou a tornar possível sua formação médica. Dr. Azevedo Costa mostrou-lhe, pelo próprio exemplo, que um homem negro também poderia ocupar o lugar de médico. Mais tarde, a convivência com grandes profissionais e sua participação em congressos e centros de referência internacionais ampliaram seus horizontes.
Mas nenhuma dessas oportunidades teria produzido os mesmos resultados sem a determinação de Odo.
Ele aproveitou cada porta que se abriu e transformou cada oportunidade em aprendizado.
A medicina como missão
No Hospital Hélio Angotti, especialmente no atendimento a pacientes com câncer, sua atuação na cirurgia reparadora ganhou uma dimensão humana ainda maior.
O paciente oncológico frequentemente enfrenta não apenas a doença, mas também as consequências físicas e emocionais provocadas pelo tratamento.
A cirurgia reparadora busca reconstruir aquilo que a doença e o tratamento destruíram. É uma medicina que combina conhecimento técnico, precisão cirúrgica e sensibilidade humana.
Foi nessa área que Odo Adão deixou uma de suas contribuições mais importantes.
Sua carreira como cirurgião plástico foi marcada pela busca constante de aperfeiçoamento e pela preocupação em oferecer aos pacientes aquilo que havia aprendido ao longo de décadas de estudo e prática.
Sua passagem por centros e congressos internacionais demonstrava a mesma característica que carregava desde menino: a vontade de aprender.
O homem que nunca deixou de estudar
Odo Adão carregou para toda a vida o hábito que aprendera ainda criança: trabalhar, estudar e buscar uma oportunidade melhor.
Mesmo depois de alcançar reconhecimento profissional, continuou estudando e se aperfeiçoando. A especialização em Houston, as conferências em Paris e a participação em congressos em diversos países demonstram que, para ele, a formação nunca estava terminada.
Seu domínio do italiano, inglês e alemão também revela essa disposição permanente para ampliar horizontes.
O médico que nasceu no município de Conquista, tornou-se um profissional conectado com o mundo, sem jamais perder sua ligação com a cidade onde sua história começou.
Uma vida de superação e serviço
Na vida pessoal, Odo foi casado pela segunda vez com Cristina Pereira Adão. Do primeiro casamento, teve um casal de filhos.
Sua história ultrapassa os limites de uma biografia profissional.
É a história de um homem que começou a trabalhar ainda criança, enfrentou dificuldades econômicas e sociais, perdeu o pai muito cedo e, mesmo diante das adversidades, não abandonou os estudos.
É também a história de um homem negro que, em uma época em que as oportunidades eram ainda mais restritas, conseguiu chegar à medicina, especializar-se, buscar conhecimento fora do país e construir reconhecimento como cirurgião plástico.
E é a história de alguém que, depois de conquistar seu espaço na medicina, decidiu também participar diretamente da vida pública de sua cidade, tornando-se vice-prefeito e prefeito de Uberaba.
Sua caminhada mostra que a superação não acontece de uma só vez. Ela é construída diariamente, por meio de pequenas decisões: estudar quando seria mais fácil desistir, trabalhar quando ainda se é muito jovem, aceitar uma oportunidade, aprender com quem sabe mais, buscar conhecimento e nunca considerar que já se sabe o suficiente.
O menino de Uberaba que começou a trabalhar aos 12 anos tornou-se médico, cirurgião plástico, especialista ligado à cirurgia reparadora e à oncologia, participante de congressos internacionais, amigo de grandes nomes da medicina brasileira e homem público.
Um legado para Uberaba
A história de Odo Adão é, acima de tudo, uma história de perseverança.
Sua trajetória começou entre a zona rural, as ruas de Uberaba, a oficina de sapateiro e a distribuição de leite. Passou pelos corredores da Beneficência Portuguesa, onde trabalhou como faxineiro e enfermeiro prático, e chegou às salas de cirurgia.
Depois, ultrapassou as fronteiras do Brasil, levando sua busca pelo conhecimento a Houston, Paris e a congressos em diferentes países.
Mais tarde, voltou sua experiência para o serviço público, ocupando os cargos de vice-prefeito e prefeito de Uberaba.
No caminho, encontrou mestres, amigos e pessoas que acreditaram nele. Mas foi sua própria força de vontade que transformou oportunidades em conquistas.
Dr. Hélio Angotti lhe ensinou que o conhecimento poderia mudar seu destino. Dona Cecília Palmério ajudou a abrir o caminho para sua formação. Dr. Azevedo Costa mostrou-lhe que era possível ser um médico negro. Ivo Pitanguy tornou-se colega, referência e amigo.
Odo Adão, porém, construiu sua própria história.
Uma história que começou com trabalho e dificuldades e chegou à medicina.
Uma história de estudo, coragem e disciplina.
Uma história de aperfeiçoamento permanente.
Uma história de cirurgia, ciência e dedicação aos pacientes.
Uma história de participação na vida pública e de compromisso com Uberaba.
E, sobretudo, uma história de alguém que nunca deixou de acreditar que era possível ir além.
De menino trabalhador a médico, cirurgião plástico reconhecido, especialista em cirurgia reparadora e oncologia, participante da comunidade médica internacional, prefeito e vice-prefeito de Uberaba, Odo Adão construiu seu caminho passo a passo.
Sua vida permanece como exemplo de que a origem não determina o destino e de que trabalho, estudo, perseverança e dedicação podem transformar não apenas a vida de uma pessoa, mas também a comunidade à qual ela pertence.
Antônio Carlos Prata

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